terça-feira, 29 de março de 2011

Que futuro?

Pá eu acho que apesar da crise e das conclusões de um estudo muito bom que até foi feito nos Estados Unidos com base nos testes realizados a uma amostra alargada, composta por um total de 3 pessoas, todas membros da equipa de investigação (isto sou eu a imitar a introdução a uma "notícia" do telejornal), para mim e para quem me conhece, não há tema que encaixe tão bem no meu início de frase / marca registada "Pá eu acho que..." do que: "...no futuro...". Fórmula que é acompanhada invariavelmente por um semicerrar dos olhos que se fixam imediatamente no horizonte real ou imaginado. A minha mulher fica logo bem disposta quando me ouve iniciar uma frase dessa forma, antecipando os momentos de diversão que mais uma ideia mirabolante lhe trará.

Desde sempre que o futuro me pareceu muito mais interessante que o presente e quando por um inoportuno acaso as coisas imaginadas como fazendo parte do futuro vêm de repente parar ao presente, para mim perdem logo quase toda a magia. O presente é um oferecido, olhamos à volta e está tudo escarrapachado! O futuro sim é um desafio. É preciso conhecer bastante bem de onde vimos e o que verdadeiramente nos move para conseguir ter uma boa ideia do que acontecerá no futuro. O passado é o meio termo. Existe informação sobre ele mas é preciso contar com o duplo efeito iceberg: daquilo que sabemos, só 1/7 é verdadeiro e o que sabemos que é verdadeiro dá-nos ideia de apenas 1/7 do que aconteceu de facto. A proporção 1/7 é apenas um exemplo baseado nos icebergs reais, claro. Quanto mais antiga a época maiores os denominadores dos dois efeitos, se bem que no caso do primeiro a variação é muito menos significativa que no do segundo. Por exemplo: não é óbvia a origem da crise em Portugal e qual a solução para ela. Será que isso acontece por não termos tido informação suficiente sobre o passado recente ou pelo contrário por sermos bombardeados constantemente por todo o tipo de informação que acaba por quase impossibilitar a identificação daquela que é verdadeira e útil?

De qualquer forma, sempre me senti fascinado por aquilo que não existe mas que a qualquer momento pode ser resgatado pela imaginação para entrar no domínio do real. Quando estava na primária e me perguntavam o que é que eu queria ser quando fosse grande, respondia sempre: "Quero ser médico mas tenho jeito para inventor!". Todos achavam graça à resposta e diziam algo como: "Boa! Assim pode ser que descubras a cura para o cancro." mas o meu interesse pela medicina foi efémero, se é que alguma vez existiu. Já o pela invenção ou, mais genericamente, pela imaginação, não se desvaneceu. Aliás devo confessar que apesar da crise e de os homens não serem supostamente dotados para o multitasking, o meu cérebro está permanentemente dividido em 4 funções (também se deve ocupar entretanto de funções básicas como respiração e batimento cardíaco senão provavelmente já me teria apercebido): 1 - a tarefa que estou a fazer no momento, como a trabalhar, a escrever no blog, etc.; 2 - uma avaliação dessa tarefa que estou a fazer, de qual a sua verdadeira importância e de como ela poderia ser feita melhor ou mais rapidamente; 3 - uma apreciação da utilidade dessa tarefa no futuro, de quando e como se tornará obsoleta, etc.; 4 - a banda sonora, que é normalmente a repetição contínua da última música que ouvi ou em que pensei conscientemente. A minha produtividade não é portanto grande coisa como podem imaginar!.

Estar sempre a pensar no futuro faz no entanto com que além de visões longínquas também me ocorram frequentemente ideias de possível aplicação imediata, mas admito que ainda não consegui levar nenhuma à prática, normalmente porque implicariam um investimento inicial que não posso ou quero financiar. De qualquer forma tenho alguma motivação em ver essas ideias serem concretizadas alguns anos depois como por exemplo as molduras digitais, os leitores de e-books sem emissão de luz, menus de restaurante electrónicos usando tablets, etc. A minha última ideia que estou à espera um dia destes de ver noticiada num telejornal é a de um sistema ERP pessoal. Ou seja, um sistema de gestão integrada que, em vez de servir para ajudar a dirigir e administrar uma empresa, ajudaria a gerir a vida de cada um. Teria módulos de gestão de relações (CRM), gestão de tempo/tarefas, gestão de carreira, gestão financeira, gestão estratégica com encadeamento de objectivos pessoais, etc. Teria toda a informação armazenada para nos ajudar quer a tomar decisões importantes quer a fazer as tarefas do dia-a-dia. Se ele pudesse usar os recursos das redes sociais e outros disponíveis online, potenciaria enormemente a eficácia de vários módulos como os da gestão de relações e carreira - acesso do sistema a informação sobre contactos, a ofertas de emprego, a estatísticas de saídas profissionais para diferentes áreas, a aplicações financeiras, etc. Este sistema poderia estar num suporte como um smart phone por exemplo para facilitar o uso contínuo.

O futuro mais longínquo torna-se mais complicado de prever. Tal como disse o mestre Yoda: "Difficult to see. Always in motion is the future". Eu não acredito em destino, profecias, horóscopos, ou o que quer que seja que faça parte desse domínio e acho piada a pessoas que ainda tentam racionalizar algumas dessas práticas dizendo por exemplo "sim, xpto é uma vigarice mas os signos fazem sentido porque têm a ver com a combinação das forças gravíticas dos planetas que nos influenciaram quando nascemos". O que normalmente não ocorre a essas pessoas é que mesmo assumindo que somos influenciados de alguma forma pela gravidade e apenas especialmente no momento do nascimento, a força gravítica de corpos muito mais pequenos mas muito mais próximos é maior que a de qualquer planeta (exceptuando o nosso, claro). De qualquer forma é insignificante em qualquer dos casos - todos sentimos num momento qualquer da vida uma atracção especial e forte por alguém, mas não se lembram de ter caído para cima de uma pessoa por causa da sua gravidade pois não? Bem, pode ser uma desculpa imaginativa! "Eu queria sair de cima de si mas a sua gravidade é tão forte que não consigo resistir!" "Compreendo perfeitamente: a minha mão está repetidamente a ser atraída pela sua cara e o meu joelho pelo seu baixo ventre!". Para garantir melhores resultados não se esqueçam então da próxima vez que vos fizerem uma carta astral de indicarem pormenorizadamente onde estavam quando nasceram, qual era a mobília do quarto e onde é que estava cada pessoa para que assim seja possível verificar toda a combinação de forças gravíticas. "Júpiter em Escorpião sugere que este é mesmo o amor da sua vida mas como o obstetra estava em Peixes e a enfermeira em Capricórnio eu não arriscaria!".

Já vos aconteceu alguém dizer-vos: "Eu não acho que os videntes consigam mesmo adivinhar a nossa vida, por isso fui a dois e assim já sei que o que me disseram os dois em comum é que está certo!" (com um sorriso orgulhoso pela esperteza)? A mim já aconteceu e posso dizer que nesse momento estava a pensar: "dou-lhe um estaladão ou não vale a pena? Dou-lhe um estaladão ou não vale a pena? Dou-lhe um estaladão ou não vale a pena?...".

Sobre as profecias, é engraçado verificar que as mais famosas são sempre as menos objectivas. Em cada década retiram-se interpretações diferentes do mesmo grupo de palavras aleatórias: primeiro era a queda de um império, depois uma invasão, a 2ª Guerra Mundial e agora já era o 11 de Setembro. É pena é que, entre todos os profetas, não houve aparentemente nenhum que soubesse escrever de forma clara o que viu. Não duvido que tenham visto alguma coisa, mas essa visão necessitou do consumo de substâncias psicotrópicas em tal quantidade que deu irremediavelmente cabo da capacidade comunicativa do vidente, pelo menos com criaturas do nosso plano existencial. Ainda está por descobrir uma profecia objectiva como: em 2010 vai surgir um blog que vai trazer sofrimento atroz a todos os que o lerem. Ah, ok, isto também continua a ser aplicável a milhares de casos...

Ainda pior que as profecias escritas são os que as vêem no meio de textos sagrados e outros. Pelo menos os profetas ainda se deram ao trabalho de escrever versos! Tudo bem que não têm grande qualidade poética, mas pelo menos esforçaram-se e não terá sido pouco tendo em conta a sua sanidade mental (como referido acima). Agora ir fazer sudoku na carta de São Paulo aos Gálatas e depois meter tudo num livro a dizer que o mundo vai acabar e vender milhares de cópias, é um belo negócio sim senhor! Merecedora sem dúvida de uma cegueira divina instantânea... Eu também consigo encontrar o nome de todos os campeões do mundo de futebol num post meu, seguindo uma chave especial que só eu é que sei. Tenho que publicar isto e vender a quem queira ganhar apostas.

De qualquer forma, saindo do domínio do metafísico e transcendental, apesar de não acreditar que dê para ver ou adivinhar o futuro, acho que dá para deduzir que acontecerão alguns eventos importantes, mas não quando ou por que ordem. Lembrando o que escrevi no post anterior, tudo funciona de uma forma caótica e não linear. Por isso por exemplo se encontramos um rio, sabemos imediatamente que ele vai acabar no mar, mas não podemos saber onde ou quanto tempo depois. Mesmo sabendo que o mar está a 10 km, o rio ainda poderá correr paralelamente à margem por muito tempo antes de chegar à foz. Da mesma forma se vir alguém a jogar golf sei que a bola irá cair no buraco mas isso pode acontecer depois de 3 tacadas ou 300...

Existem assim pontos ou passos ou nódulos de desenvolvimento ou o que se quiser chamar que irão mais tarde ou mais cedo ser cumpridos mas sem que seja possível saber quando ou de que forma ou sequer por que ordem. Por exemplo se estivéssemos no século II ou III poderíamos imaginar que determinados desenvolvimentos em medicina ou engenharia seriam alcançados no futuro mas não que por causa de movimentações de povos nómadas, radicalização religiosa, etc. isso só iria acontecer por volta do século XIX. Da mesma forma, quando depois das guerras napoleónicas e por consequência delas a Europa ficou dividida em maiores e muito menos Estados independentes, tornou-se mais ou menos evidente que a recém formada Alemanha tinha população, recursos e infraestruturas para se vir a tornar o país mais poderoso do continente, apesar de não ter colónias. O processo de deslocação do centro da Europa da Inglaterra para a Alemanha provocou as duas maiores guerras da história e demorou cerca de 150 anos mas o que é certo é que hoje e através principalmente da União Europeia (uma via pacífica quem diria!), a Alemanha já ocupa incontestadamente essa posição.

Hoje em dia olhamos para a China como estando numa situação semelhante. Têm população, recursos e infraestruturas para se tornarem o centro mundial e já dominam economicamente os Estados Unidos, onde tem estado o poder pelo menos desde a 2ª Guerra, por isso se não houver uma mudança radical, mal ou bem, demorando muito ou pouco, o centro irá para lá. Até agora foram sempre países de cultura europeia ocidental que ocuparam essa posição (antes do século XVII só podemos falar em centros regionais) por isso seria uma alteração dramática na ordem mundial, nos valores e política dominantes, etc. Seria uma mudança tão grande especialmente para os países como o nosso, habituados a ocupar o lugar de topo da "cadeia alimentar", que muito dificilmente poderia acontecer de modo pacífico.

As maiores fraquezas da China são o regime político central e autoritário (apesar de muito aberto economicamente) e o facto de incluir muitas minorias étnicas mesmo com processos passados e em curso de os deslocalizar e substituir por chineses. É de esperar por isso que a oposição ao regime e os movimentos independentistas locais sejam apoiados cada vez mais como forma de enfraquecer o país. Aliás, apesar da China estar muito mais aberta ao ocidente e ser identificada como amiga, aliada, etc. a visibilidade da oposição e de movimentos independentistas está a crescer, com por exemplo o maior destaque dado à causa pela independência do Tibete, adormecida durante décadas, e recentemente com a atribuição do prémio Nobel da paz a um contestatário ao regime. A necessidade de importar petróleo de outros países, sobretudo africanos, poderá ser também explorada.

Eventualmente o cenário poderá ser o de uma guerra fria em palcos como a Coreia com o objectivo de isolar e desagregar a China como aconteceu com a União Soviética. Se considerarmos no entanto que basta à China vender toda a reserva que tem de USD para causar uma crise no mundo ocidental ao nível da de 1929 e maior que a actual, é fácil concluir que um confronto político assumido só será uma opção de último recurso.

Continuando a prever o futuro, qualquer português consegue deduzir que o próximo governo será liderado pelo PSD. Depois de um ou dois mandatos será liderado pelo PS, depois pelo PSD, ... A oscilação do poder executivo em Portugal segue um princípio estocástico - caótico dentro de limites definidos, ou seja, não dá para saber se daqui a 20 anos o governo será PS ou PSD mas, se nada de fundamental acontecer, como o surgimento de um novo partido de poder, será certamente um dos dois. E também me arrisco a prever que o país estará em crise!

"No futuro" é então o quinto e último tema deste blog e talvez o meu mais caro. Tenho é o desafio a partir de agora de escolher assuntos dentro deste contexto que sejam minimamente interessantes para alguém que não eu, ou tão estranho como eu, e sobretudo que não motivem um processo de internamento compulsivo num hospital psiquiátrico!

De qualquer forma, como sugeri no post "Grandes para quê?", acho que cada um deve ler os posts por tema e não cronologicamente, escolhendo só o que lhe interessa. Estou a pensar até em mudar o design do blog para dividir os temas por separadores e assim facilitar que a leitura seja feita dessa maneira.

Para concluir quero só dizer que estou contente porque consegui acabar a fase de introdução do blog em apenas meio ano! Continuando a este ritmo, o centésimo post será escrito por um neto meu... e isto é uma dedução, não uma adivinhação!

terça-feira, 15 de março de 2011

O fundo da realidade


Pá eu acho que apesar da crise (tenho que utilizar esta fórmula mais vezes para aumentar a aceitação do que escrevo) uso mais "Pá eu acho que no fundo..." do que "Pá eu acho que na realidade..." para começar uma divagação sobre um tema qualquer que não pertença a nenhuma classificação óbvia como "em Portugal" por exemplo, e a minha mulher concorda. Apesar disso achei que se usasse "no fundo" como nome para esta parte do blog ia criar a expectativa de se tratar de um espaço onde ia falar de quem na minha opinião tinha estado menos bem na última semana ou na noite dos Óscares ou no concurso miss t-shirt molhada da concentração de motas de Faro ou algo do género, o que não faz mesmo nada o meu estilo. Para alguém ser referido neste blog ou é porque vou falar muito bem ou é porque vai levar com um barril de napalm.

Para evitar confusões vou então usar "na realidade", se bem que isto acaba por ser um contra-senso já que nada é tão confuso como a realidade, como sabem todos os que viram o filme The Matrix: "What is "real"? How do you define "real"?" e principalmente todos os que já usaram e abusaram de substâncias psicotrópicas: "Aaaaghhhaaauuuaaa...". Mas no fundo a realidade só é confusa para nós porque tentamos compreendê-la e isso é simplesmente areia de mais para a nossa camioneta:

Todos os seres vivos são mecanismos que acumulam estímulos exteriores e executam determinadas reacções a esses estímulos (por exemplo o estímulo combinado desta frase introdutória e da quantidade de texto que ainda falta ler está neste momento a provocar uma reacção de extremo entusiasmo!). Com o aumento de complexidade de processamento dos estímulos, vão ganhando a capacidade de relacionar vários estímulos para uma reacção, guardar um registo dos estímulos recolhidos ao longo do tempo para conseguir uma reacção mais precisa mesmo que momentaneamente não existam estímulos (memória) e até a nossa faculdade de visualizar estímulos que não aconteceram e quais seriam as reacções possíveis (imaginação).

O encadeamento dos três tipos de processamento acontece naturalmente em nós. Um exemplo comum: é o primeiro aniversário do Martim (a ultrapassar Guilherme na lista de preferências pelo que ouço dizer (esforço hercúleo para me ficar por aqui - talvez num próximo napalm)) e ele está fascinado com a única vela em cima do bolo. A cor, luz e movimento são estímulos que motivam a exploração. Num momento de distracção geral consegue tocar na chama e recebe logo o estímulo de dor com uma intensidade que se sobrepõe aos outros e reage como todos sabemos. Este estímulo foi também intenso o suficiente para ficar guardado na memória e ele não voltará provavelmente a repetir a experiência (ok, com este nome deve precisar de repetir para perceber). Mais tarde quando se deparar com um fogão eléctrico, conseguirá imaginar o estímulo que receberá se tocar nele apesar de não existir chama.

Podermos imaginar faz com que tenhamos a dupla possibilidade de: ou continuar a reagir de acordo com os estímulos que sentimos, ou agir de acordo com a conclusão a que chegamos depois de visualizarmos aquilo que conseguimos imaginar sobre a situação. Tradicionalmente chamamos acto irracional à primeira possibilidade e racional à segunda tal como nos chamamos orgulhosamente racionais a nós e irracionais aos outros. A maior parte do nosso comportamento é motivado no entanto por estímulos reais e não imaginados, por isso quanto muito podemos ser "racionáveis", por termos a possibilidade de ser racionais pontualmente.

Quando falamos com alguém, por exemplo, estamos conscientemente focados na troca de palavras e mesmo antes, ao visualizar a conversa, só imaginámos essa parte ("se ele disser isto lembro-lhe aquilo...", etc.), no entanto existe um jogo inconsciente de troca de estímulos e reacções durante a conversa que vai definir todo o nosso comportamento (ok, há conversas em que nem sabemos o que estamos a dizer por estarmos focados noutro tipo de estímulos mas vamos assumir aqui que se trata de uma conversa típica). Até a única parte da conversa que seria supostamente racional (o discurso) por ser a única de que temos consciência, é modificada pelos estímulos que sentimos: tendo imaginado uma conversa ou até tendo um guião à nossa frente, mesmo assim não dizemos a mesma coisa a duas pessoas sendo uma do mesmo sexo e a outra de sexo oposto, uma nova e outra velha, uma percebida como socialmente ou profissionalmente inferior e a outra superior, estamos num dia "bom" ou num dia "mau", etc.

Como na maior parte dos casos não usamos a nossa imaginação, ficamos tendencialmente presos aos estímulos que tivermos acumulado. Uma pessoa que tiver passado a infância a ouvir que indivíduos de outra raça, religião, nacionalidade, etc. têm uma determinada característica, só deixará de acreditar nisso se acumular estímulos suficientes em sentido contrário, ou se conseguir imaginar que essa opinião não é verdadeira ou que pelo menos deixou de ser verdadeira. A imaginação só funciona a um nível consciente no entanto, daí termos fenómenos como o racismo não explícito. De qualquer forma imaginar essas hipóteses também reequilibra a intensidade dos estímulos recebidos (quem acredita firmemente em algo ignora 9 estímulos contrários em 10 e vê o último como a confirmação).

Isto é mais fácil de dizer do que fazer claro. Especialmente porque, mais uma vez, não estamos isolados. Tendo em conta que os estímulos provocam-nos reacções irracionais e que existem mais estímulos quando estamos em grupo, pela lógica a racionalidade de um grupo não organizado é inversamente proporcional à sua dimensão, como sabem bem todos os que já participaram em reuniões de grupos grandes, assembleias (incluindo a da República), etc.

Quando nos perguntamos como é que foi possível todo um país seguir cegamente um louco numa guerra que matou milhões, a resposta passa fundamentalmente pela utilização da tal irracionalidade das massas alimentada por uma contínua sobre-estimulação com as ideias do regime. A inovação foi o uso como estímulo do método de propaganda "A grande mentira" preconizado pela célebre frase "uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade". Até lá ninguém tinha imaginado que uma população inteira fosse influenciável por uma mensagem claramente errada mesmo que repetida até à exaustão. No fundo trata-se apenas de trazer para a Psicologia o conceito de explosão como visto pela Física: estimulação externa de um determinado material para que se inicie nele uma reacção em cadeia que leva a uma libertação súbita de energia.

Mas para acontecer este tipo de fenómeno não é necessária uma decisão consciente, basta que exista o estímulo suficiente para começar a reacção auto estimulante como em fogos florestais, furacões, etc. Algo do género é o que existe em Portugal provavelmente desde o fim do séc.XVI. Com a contínua perda de importância internacional, riqueza, território e até conhecimento, gerou-se uma onda de derrotismo, vitimização, apatia, sarcasmo, etc. que se tem auto reforçado continuamente até hoje e para alguém fugir dela é preciso isolar-se durante algum tempo de tudo o que seja comunicação social e até mesmo de conversas de grupo porque já é algo totalmente enraizado na nossa cultura. Para todo o país mudar a mentalidade será preciso existirem estímulos em quantidade suficiente que contrariem a ideia mas isso é exactamente o que essa atitude tem impedido. Conseguir que uma parte significativa da população tenha tido a experiência de viver noutra cultura durante algum tempo será talvez o contributo possível de maior impacto.

Individualmente, a única forma de escapar a esse processo estímulo - reacção é então a imaginação. Como é que conseguimos fazer dieta apesar de todos os estímulos nos motivarem a comer maior quantidade e alimentos com maior valor energético? A resposta óbvia é: por imaginarmo-nos mais atléticos, saudáveis, etc. e esse estímulo ser forte o suficiente para bloquear a reacção que ocorreria por defeito. Na realidade, no entanto, arrisco-me a dizer que na maior parte dos casos as pessoas fazem dieta reagindo a estímulos de pressão social já que todos estamos bastante conscientes de qual deve ser o aspecto físico ideal e da hierarquização que é feita com essa base. Pegando numa pessoa que faz uma dieta rigorosa, supostamente por preocupações de bem-estar, saúde, etc. e colocando-a sozinha num supermercado que se auto reabastecesse eternamente e ela tivesse a clara consciência de que nunca mais ia estar com ninguém, será que continuava a comer na secção da fruta e legumes ou passava a ir para os doces? Eu posso dizer que ia para os queijos e enchidos!

Provavelmente não existe nenhum comportamento generalizado que seja motivado pela imaginação mas com ela conseguem-se grandes feitos e avanços civilizacionais. Uma pessoa que tenha uma visão, um sonho, etc. e se agarre a isso para decidir as suas acções independentemente dos estímulos que receber será muito mais provavelmente bem sucedido, pelo menos na realização desse sonho. Em vez de ou para além de reagir aos estímulos do grupo em que está inserido terá também iniciado um novo encadeamento de estímulos porque quem o rodeia irá reagir ao seu comportamento inovador. Com insistência própria e receptividade do grupo, o encadeamento de reacções pode atingir uma dimensão enorme como no caso de grandes líderes.

A nossa imaginação é no entanto, ao contrário do que é costume dizer, muito limitada. Conseguimos imaginar tudo, mas poucos cenários de cada vez (como sabem todos os que já fizeram um sudoku de nível difícil, jogam xadrez, etc.). Por isso é que para compreendermos alguma coisa temos a tendência de a isolar de tudo o resto para que todas as hipóteses sejam possíveis de imaginar simultaneamente. O problema é que quase tudo funciona em interacção com o que o rodeia, tal como nós numa conversa, por isso o isolamento conduz normalmente a conclusões incorrectas porque transmitem uma imagem de linearidade (um estímulo - uma reacção) que não existe num ambiente não isolado. Em não isolamento os comportamentos seguem normalmente o tal padrão de acumulação de estímulos até desencadear uma determinada reacção como: tensão das placas tectónicas até provocar um terramoto, peso da neve até provocar uma avalancha, número de clientes antipáticos até passarmos a tratar mal quem nos apareça à frente, número de erros até sermos despedidos, número de parágrafos até desistirem de ler o post (já chegaram até aqui, só mais um esforço vá lá!). Tudo isto não é linear e não permite conclusões porque não conseguimos imaginar todos os estímulos envolvidos - é confuso, é o caos.

A realidade é então confusa porque não conseguimos imaginar mais que uma pequena fracção de tudo o que a compõe. No entanto, se por um momento deixarmos de nos preocupar em compreender e focarmo-nos só em sentir, ficamos mais conscientes dos estímulos que nos estão a afectar num determinado momento (quente, áspero, doce, sereno, brisa, saudade, etc.) e com o seu conjunto conseguimos ter uma visão de uma pequena parte da realidade - uma visão da nossa realidade. Se aproveitarmos a oportunidade para materializar o que sentimos nesse momento, de uma forma qualquer, não pensada, não estruturada, acima de tudo não compreendida, nasce a obra de arte. Este continua a ser o nosso melhor processo de descrever e partilhar a realidade mas também o menos...compreendido.

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Este post acabou por ficar mais uma dissertação que outra coisa por isso para evitar que me levem a sério acho melhor fazer um alerta:

Aviso legal:
O autor do texto acima não teve a mínima preocupação em fundamentar devidamente o que escreveu, na maior parte dos casos porque o que escreveu não tem qualquer fundamento. Agora a sério: este gajo não percebe nada do que está a dizer por isso não o citem em conversas, textos, ou outras ocasiões potencialmente embaraçosas porque ninguém deste blog será responsável solidariamente por nada a não ser pela gozação resultante.
A leitura deste aviso não dispensa a leitura do post.

terça-feira, 1 de março de 2011

Em Portugal...ou não!


Pá eu acho que Portugal (como região geográfica) historicamente não se governa nem se deixa governar.

Mentira! Quem achou isto foi o Júlio César ou outro romano qualquer da mesma época (porque é que ligamos ao que tipos que se vestiam com lençóis, espanadores e sandálias achavam, mesmo?), não sendo claro exactamente quem, nem se achando sequer registos que evidenciem essa afirmação. Se calhar foi afinal alguém do aparelho de propaganda do Estado Novo que achou que isto era mais uma bela peta romântica a enfiar nos livros de história, achando que em troca dela acharia mais uns tostões no bolso. Ou então é simplesmente algo que todos achamos e achámos e acharam todos os que em Portugal (com esse ou outro nome) se acharam, ou que mesmo fora dele tiveram a oportunidade de interagir com a sua venturosa gente.

Penso que mais importante que saber quem disse a frase e sobretudo mais definidor do que é ser português é por um lado o facto de a frase continuar a sobreviver através de renovadas citações, o que sugere concordância generalizada, e sobretudo por outro lado a forma como essa concordância é feita: a frase na boca de um romano de há uns 2100 anos indicia menosprezo pela forma de organização do adversário e pela sua inteligência ao rejeitar teimosamente a possibilidade de evolução civilizacional, enquanto que a mesma frase na boca de um português há cerca de 2:10 horas enquanto discutia com os amigos a hipótese da entrada do FMI em Portugal indicia orgulho por não nos deixarmos governar mas também um misto de resignação e orgulho disfarçado por o país não se governar (como um pai que repreende o filho por fazer uma asneira mas que interiormente pensa "eh eh, aquele malandro, sai mesmo ao pai!").

Essa resignação e orgulho disfarçado que sentimos por o país não se governar talvez explique porque é que nesse aspecto nada mudou em pelo menos 2100 anos. Conseguimos continuar orgulhosamente a não nos deixarmos ser governados mas aparentemente por outro lado não sentimos na realidade que seja muito importante para nós que o país se governe. Acho que existe um terceiro factor, que os romanos não consideraram por limitação da sua própria cultura mas que na nossa interpretação está implícito porque nem precisa de estar explícito de tão óbvio: é que para cada português o que é mesmo importante é que cada um se possa ir governando a si, independentemente do colectivo. Para a maior parte dos outros povos a lógica é: se o país for bem governado cada um ganha. Para nós o que faz sentido é: se cada um se souber governar o país todo ganha. Portanto permitam-me que complete finalmente a frase: Em Portugal não se governam nem se deixam governar mas cada um vai-se governando!

Isto tem todo o tipo de repercussões no dia-a-dia de um português. Tudo o que tem a ver com o colectivo como regras, leis, objectivos de grupo, prazos dilatados, etc. são conceitos muito difíceis de interiorizar por nós e mais difíceis ainda de pôr em prática. O ideal mesmo é termos o nosso objectivo individual e poucas restrições para podermos desenrascar como for mais fácil. Quanto a prazos, internacionalmente entende-se que curto prazo é menos de um ano, médio prazo entre 1 e 3-5 anos e longo prazo a partir daí, enquanto que em Portugal a convenção é que curto prazo é para já (era para ontem), médio prazo é depois de um café, refeição, etc. e longo prazo é para amanhã. Prazos mais longos são para um português algo que pertence a um domínio mais metafísico, aliás o próprio conceito de "amanhã" já é diferente entre nós e pessoas de outras nacionalidades, gerando frequentes mal-entendidos.

Tudo isto faz com que cada português seja normalmente individualista, pouco organizado e planeado, muito criativo e adaptável, prefira objectivos individuais e de curto prazo, deteste regras mas seja muito flexível. Em resumo, alguém péssimo para ter uma boa produtividade numa actividade contínua e rotineira mas excelente para resolver crises urgentes ou inovar em qualquer área.


Esta ideia é transmitida de forma brilhante por uma história que me foi contada há uns anos: no séc. XVII os holandeses sucederam-nos no domínio do comércio das especiarias por nos terem conquistado alguns portos no que é hoje a Indonésia mas como ainda não conheciam bem aquelas águas perigosas em que centenas de ilhas estão acima ou abaixo da superfície de acordo com a maré (Afonso de Albuquerque naufragou lá depois da conquista de Malaca perdendo uma fortuna avaliada hoje em dezenas de biliões de euros!) tiveram que contratar navegadores portugueses experientes para guiar os navios. O choque cultural entre os comandantes holandeses e os navegadores portugueses ficou guardado num ditado holandês da época dividido em três partes:
"
1 - Nenhum navio pode sair do porto sem ter um português a bordo;
2 - Pergunta: Qual é a primeira coisa a fazer assim que o navio sai do porto?
     Resposta: Prender o português;
3 - Pergunta: Quando é que se deve soltar o português?
     Resposta: Quando tudo estiver a falhar!
"
Devo dizer que o meu chefe é holandês mas até agora ainda nunca me prendeu. Não posso garantir no entanto que nunca tenha pensado nisso...

Por falar em portugueses a trabalhar para estrangeiros, a nossa tendência para a emigração também é facilitada pelas nossas características: motivados por objectivos pessoais, flexíveis, sem sentir decréscimo de segurança significativo por sair do seu grupo de origem, muito adaptável, etc.

Isto é válido tanto para os emigrantes tradicionais como para os emigrantes mais qualificados de agora. Por experiência própria posso também dizer que quem sai de Portugal com alguma experiência de trabalho, habituado aos nossos prazos (descritos acima) é visto no estrangeiro como surpreendentemente calmo, mantendo uma postura zen mesmo quando tem que cumprir com os prazos mais "apertados". Vá-se lá saber porquê!

O problema é que como geralmente só sabemos resolver crises e não planear e preparar tudo metodicamente e antecipadamente, uma organização só de portugueses acaba por ir deixando tudo chegar a urgente antes de ser tratado, o que faz com que pareça que estamos sempre a ir de crise em crise, como pode ser visto pelo próprio país, pela selecção de futebol, etc.

De qualquer forma é preciso admitir que nos temos sabido desenrascar ao longo da história e Portugal não tem mesmo paralelo na estabilidade da sua independência e fronteiras. Um amigo alemão perguntou-me um dia como é que nós tínhamos conseguido essa proeza tendo como vizinho um país que esteve em guerra e invadiu ou tentou invadir quase todas as regiões da Europa e arriscou: "vocês devem ser mesmo bons a andar à porrada!" mas na realidade conseguimos o feito ainda maior de arranjar sempre uma forma mais subtil de chegar aos nossos objectivos. Desde os primeiros registos históricos, passando por Afonso Henriques, Vasco da Gama, as duas guerras mundiais, o 25 de Abril, etc. sempre mostrámos uma enorme capacidade de improvisação e de auto-preservação. Isso faz pensar que será mais provável Portugal existir daqui a uns 500 ou 1000 anos do que outros países mais ricos, maiores, etc. Citando Darwin: "Não é a mais forte das espécies que sobrevive ou a mais inteligente, mas sim a mais adaptável à mudança.".

Se juntarmos a isto o nosso humanismo: primeiro país a abolir a escravatura, primeiro país a abolir a pena de morte, principal porta de saída da Europa para os Judeus durante a 2ª Guerra Mundial, etc., o nosso excelente clima e gastronomia aos quais quem sempre viveu em Portugal nunca conseguirá dar o devido valor, são razões mais que suficientes para ter amor e orgulho pelo nosso país.

De qualquer forma, como bom português, estou no estrangeiro a usufruir de uma qualidade de vida que levaria bastante tempo a ter em Portugal. Talvez um dia (muito) mais tarde volte a viver em Portugal dependendo da evolução do sistema nacional de saúde. Entretanto vou fazendo lá férias de vez em quando claro. Vou também acompanhando o que vai acontecendo, com a serenidade de saber que raramente sou afectado directamente, com a distância suficiente para ver as coisas em perspectiva e com o comparativo de outras realidades. Espero que isso dê alguma relevância às opiniões que vou passar a escrever por aqui sobre Portugal.

Entretanto já sabem: esqueçam o (des)Governo e vão-se governando!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Napalm

Pá eu acho que sou um porco. Quem diz um porco diz um carneiro ou um boi ou outro animal doméstico qualquer. Sou eu e é toda a gente que está a ler este post quase de certeza. Esta constatação atingiu-me em cheio quando enfrentei o olhar de alguém que passou dezenas de anos em guerra. Não interessa o tamanho do corpo, a aparência, a massa muscular. O olhar. Aquele olhar aguçado, vivo, alerta e selvagem, totalmente focado, dando uma sensação quase física e invasiva de contacto, por oposição ao nosso olhar mais mortiço e desfocado, bastou para compreender que o conceito a que chamo mundo é afinal uma enorme quinta e que para lá dos seus limites existe ainda outro mundo que não conheço nem espero alguma vez vir a conhecer. Todas as nossas diferenças culturais, linguísticas, religiosas, etc. para os outros seres humanos, pequenas e grandes, originam níveis equivalentes de incompreensão mas aparentemente nada é tão separador como encarar a própria sobrevivência como um conceito abstracto relacionado mais com o nosso planeamento financeiro, ou vê-la, não no futuro mas no presente, como a nossa maior (ou até única) preocupação. Permanentemente. Na realidade (e felizmente) antes de o fazer com o cão, o cavalo ou a cabra, o nosso processo de domesticação de nós próprios já tinha começado há muito tempo.

Numa visita à quinta, essa pessoa, vamos chamar-lhe Mr.Wolf (sim, sou fã do Tarantino) partilhou por mero acaso uma refeição com uma familiar de uma vítima do 11 de Setembro e escutou compreensivamente o relato do atentado e sofrimento que provocou até ao momento em que este começou a ser substituído por apreciações (de um animal de quinta como nós, bem entendido) sobre os terroristas, suas motivações e bases de apoio ao terrorismo. Mr.Wolf, conhecedor do tema, com uma preocupação meramente informativa, decidiu então descrever minuciosamente os efeitos de um bombardeamento de napalm em povoações onde os homens estão normalmente ausentes por estarem escondidos a utilizar técnicas de guerrilha. Depois de guardarem silêncio durante alguns minutos, a familiar da vítima concluiu resignada: "we deserved it".

Lembrei-me disto porque tenho estado com um humor cada vez pior e só vejo napalm à frente: tenho que fazer alguma coisa para me livrar rapidamente dos bidons que comprei a pensar nos bloggers e que me estão a ocupar metade da casa. Ontem tive até que dar uma desculpa esfarrapada à pediatra da minha filha de 2 meses dizendo que o cheiro a gasolina que estava na roupa dela era só porque a tinha deixado experimentar abastecer o carro. Ainda bem que fui rápido a pensar em qualquer coisa verossímil. Se houvesse a suspeita que uma bebé de 2 meses dorme em cima de um bidon de napalm (com um colchão de fibra de bambu em cima claro!) ainda me arriscava a perder a custódia dela e isso iria de certeza causar problemas com a minha mulher quando chegasse a casa: "Olá querida." "Então, onde é que ela está?" "Err...Fui à pediatra e está tudo bem com ela! Temos uma filha perfeita!" "...Sim, mas..." "Pois, só que...err...alguns testes foram inconclusivos por isso ela teve que ficar lá para...pronto, para os fazer outra vez, eheh...depois volta, claro." "Ahhhh ok.......(pega no telefone)......Estou? Podia falar com a Dra. por favor?" momento em que eu fujo de casa o mais rápido possível.

Convém então ver-me livre dos bidons mas não os posso simplesmente mandar fora porque sou uma pessoa ecologicamente responsável e por outro lado também não me sentiria bem comigo mesmo em perder esta boa oportunidade já que há por aí muito boa gente que tem feito por merecer um bidonzito de napalm pela cabeça abaixo. E quando digo pela cabeça abaixo é já incendiado claro senão seria só uma maneira parva de fazer alguém ficar a cheirar mal durante um mês. Isto faz-me pensar que se já houvesse napalm no tempo da Inquisição espanhola haveria certamente gente do clero muito mais feliz: "Boa! Demorámos décadas a matar 1/3 dos flamengos por serem Protestantes mas agora damos cabo do resto em semanas numa série de bombardeamentos!" Feliz ao ponto de cumprir alegremente o voto de castidade. Aliás será que aceitariam o package promocional: poderem usar napalm mas pedofilia passar a ser também punida com um banhito do fogo divino líquido? É uma pergunta difícil mas eu acho que sim. Por outro lado fora do clero é óbvio que haveria muita gente muito menos feliz, ou melhor dizendo e simplificando acho que haveria muito menos gente.

Agora que penso nisso, livrar a sociedade de certas e determinadas pessoas até é capaz de me tornar numa espécie de justiceiro; num herói das classes oprimidas. Mas de qualquer forma confesso que não preciso desse tipo de incentivo. É que eu sou uma pessoa sádica e rancorosa por natureza por isso largar napalm sobre alguém vai por si só ser catártico, libertador e anti-stress o suficiente para me motivar.

Acho mesmo que vai ser tão motivante que assim que começar a virar bidons, por assim dizer, não vou conseguir parar até ficar sem napalm e provavelmente ainda vou acabar por fazer outra visita ao Wal-Mart para repor os stocks. Aliás, é comum no meu dia-a-dia, quando quero mostrar a minha opinião depreciativa sobre uma determinada pessoa, em vez de dizer por exemplo: "Ah e tal aquele gajo é uma grandessíssima besta!" digo "Epá aquele gajo: napalm!" e é o suficiente. Ao fim e ao cabo proponho-me apenas passar das palavras aos actos.

A minha sorte é que, como isto de ir nutrindo sentimentos venenosos sobre diversas pessoas é uma coisa que já vem de longe, para não deixar que se tornasse algo incontrolável, aprendi a utilizar um antídoto bastante simples. Esse antídoto é: Yann Tiersen. Basta concentrar-me na pessoa que é o meu alvo num determinado momento enquanto ouço algo do Yann Tiersen. Vou pensando na sua vida, nos seus sonhos, etc. e sinto logo a minha sede de violência esmorecer e ser substituída por uma vontade enorme de falar com essa pessoa, abraçá-la e explicar-lhe que podemos ser amigos e lutar pelos mesmos ideais. Às vezes cheguei mesmo a meter-me no carro mas é exactamente por essa razão que não tenho lá Yann Tiersen a tocar mas sim algo mais neutro. Acabo sempre por voltar para trás a meio do caminho quando o efeito se desvanece.

Vamos fazer um exercício prático: alguém que de vez em quando me apetece regar com napalm é por exemplo o Alberto João Jardim. É preciso explicar por quê? Tudo bem, não escolhi o Madail por exemplo que seria muito mais óbvio, mas se considerarmos aquela mania de vir permanentemente rebaixar quem quer que seja visto como um eventual entrave às suas políticas regionais, quando estas resultam não de uma extrema competência mas de um financiamento anual pago pelo continente de 300 milhões de Euros usados especialmente em vésperas de eleições ou, para quem é da Madeira, quando todos os órgãos de comunicação social regionais estão controlados ou abafados, garantindo a proeza de o Presidente do governo regional da Madeira ser o governante democraticamente eleito com o recorde mundial de permanência no poder, apenas ultrapassado na lista total de governantes por Muammar Kadafi, acho que está tudo dito.

Para iniciar o exercício ponho então algo do Yann Tiersen a tocar: e começo a pensar no pequeno Alberto João (Beto João? Betojão? Bertojão? Bejó? Bem, não interessa) numa bela tarde de Outono madeirense, o Sol derramado sobre as calmas águas do Atlântico em que ondas rebolam preguiçosamente até abraçarem a costa de pedras quentes. Alheio a esse cenário, passa as horas com os seus amigos a brincar às escondidas entre as bananeiras. A jogar à bola junto ao mar. A fazer corridas em terra e na água. A competir. A gracejar. A amuar. A imaginar. A discutir. A abraçar. A rir. Quando começa a anoitecer finge que não ouve a mãe a chamá-lo para voltar para casa porque quer continuar a ver o que é que aquele bicho está a pensar fazer. Quando finalmente regressa relutante, ouve a tradicional descompostura, acompanhada pelo também costumeiro breve puxar de orelha e senta-se de imediato a empanturrar-se com o jantar de espada com banana.

Então? Ainda há alguém a querer cobri-lo de napalm? Eu pelo menos já sinto a minha vontade diminuir consideravelmente.

Continuando: Alberto João foi para Coimbra com a ambição de voltar Dr.Jardim. Eventualmente viria a consegui-lo ao fim de 10 anos e até lá gozou, como muitos de nós o fizeram ou fariam, a vida académica pelo que tem de melhor, ainda por cima na sua capital. Do Mondego até à torre da universidade, dias e noites eram preenchidos com copos. Canções. Brincadeiras. Gozações. Serenatas. Repúblicas. Queimas das fitas (não como as actuais). Discursos inflamados (em privado). De vez em quando também umas aulitas. Levou a poncha para a noite de Coimbra e levou a noite de Coimbra na memória quando regressou finalmente à Madeira. Nunca mais deixou de ser conhecido como bom parceiro para as festas, seja entre companheiros num café na Câmara de Lobos ou entre sambistas no desfile de Carnaval do Funchal.

Deixando-me entusiasmar pela música (os mais atentos dirão "a música não é da banda sonora desse filme" e eu direi "podem por favor escrever o vosso nome e morada que tenho ali uns bidonzitos de prenda para vocês?"): Alberto João Jardim aime poncha, aime inaugurações e aime bujardar nos "cubanos". Ele n'aime pas outras pessoas com opiniões diferentes das dele, n'aime pas outras pessoas com opiniões,...n'aime pas outras pessoas.

Ok, confesso que apesar da terapia já começo a sentir aumentar outra vez a vontade de lhe dedicar um bidon e acho que quando o voltar a ver e ouvir no telejornal ela ficará totalmente restabelecida. Talvez seja melhor focar-me só na infância daqui para a frente que é mais eficaz. De qualquer forma acho que ficou claro pelo exercício prático o impacto que tem o antídoto Yann Tiersen.

Vou então dedicar esta área do blog (2ª de 5) a relatar o meu hobby secreto de entornador de bidons de napalm. Se há blogs para todo o tipo de hobbys: cozinha, bordados, cinema, livros, animais domésticos, etc. por que não o hobby de colocar seres humanos em combustão? Isto sim é uma actividade radical! Mas de qualquer forma prometo que será sempre por bom motivo. Não é só chegar cá e pedir para levar com napalm. Os candidatos terão sempre que ser submetidos ao teste Yann Tiersen para verificar se são de facto merecedores de levar com um bidon.

sábado, 16 de outubro de 2010

Eu

Pá eu acho que os 100 anos da República foram aproveitados ao máximo. É sempre mágico ver como, independentemente da sua falta de organização, planeamento, cooperação, iniciativa, etc. os portugueses conseguem sempre por ocasião de qualquer efeméride, real ou criada por um qualquer jornalista mais oportunista - no fundo não interessa, reunir-se em uníssono para celebrar num grande evento a nível nacional, através daquela que é de longe a nossa actividade favorita: a crítica alarve, arrebatada, apocalíptica e sobretudo totalmente desprovida de fundamentação (se for alarve, arrebatada, apocalíptica mas tiver uma base factual, tipo o Al Gore a falar do aquecimento global, não serve, é preciso praticar mais!).

Que eu tenha conhecimento, mas corrijam-me por favor se estiver errado, não houve nenhum spam de sms, campanha telefónica ou televisiva e nem sequer umas avionetas a passar com uma  mensagem qualquer mas, assim que se começou a aproximar a data, em todo o país, pessoas que nunca discutiram na vida a República ou leram algo sobre ela ou que sequer fazem alguma ideia do que é, começaram lentamente e de forma totalmente sincronizada a sentir um calor crescente vindo das suas entranhas, uma comichão, um mal estar, uma insatisfação que se foram tornando cada vez mais intensos até, no limite da resistência, já não poderem ficar contidos e se libertarem numa cacofonia monumental.

Em Freixo de Espada à Cinta a Dona Deolinda gritou da sua horta para a vizinha que "quando mataram o Rei mataram Portugal!", na Castanheira do Ribatejo o Sr. Joaquim Antunes, Quim para os amigos, exclamou irado a todo o grupo com quem partilhava as imperiais e o pires de caracóis na tasca do Chico que "este país é desde há cem anos um covil de ladrões!" e até o Joãozinho...aliás o Gui (tenho que me lembrar que os miúdos agora se chamam todos Guilherme!) de São Brás de Alportel ao chegar a casa arriscou: "No tempo do Salazar é que era bom!", tendo sido imediatamente levado por uma orelha para o quarto onde ficaria de castigo por ter elogiado um governante dos últimos cem anos.

Confesso mais uma vez que fico maravilhado com este espectáculo que se repete de tempos a tempos e que só consigo comparar a uma erupção vulcânica, com a grande vantagem de, se mantiver a boca calada, não correr o risco de ser mergulhado em rocha líquida incandescente até ficar totalmente carbonizado.

Esta é também a ocasião ideal, aproveitando o consenso momentâneo, para afirmar aqui que sou a favor da Monarquia. Adianto ainda, depois de comparar demoradamente as mais diversas opções, que penso ser eu próprio a melhor escolha para Rei de Portugal. Aliás, não penso, sou a melhor escolha! Aliás, não sou a melhor escolha, já sou o Rei! Já sou o Rei e pronto! Não sei se foram informados mas eu já sou neste momento o Rei de Portugal. Não venham com lamurias de ser inesperado e não terem tido possibilidade de contribuir para a decisão porque agora são todos meus súbditos e a vontade Real é que conta (é óbvio que sou um Rei absolutista). Como nem a primeira Monarquia nem a República foram validadas pela opinião popular através de referendo, ninguém pode questionar a legitimidade deste novo regime.

Eu compreendo que por enquanto muita gente ainda esteja pouco convencida com esta mudança mas tal como é dito e repetido constantemente por defensores da Monarquia, um dos grandes benefícios deste sistema político é que o chefe de Estado é preparado desde a infância para ocupar esse cargo e, não fugindo à regra, posso confirmar que esse foi o meu caso. Beneficiando da rica herança genética e dos ensinamentos acumulados desde tempos imemoriais pelos meus antepassados, posso afiançar que a minha vida até agora tem sido uma busca contínua de levar até níveis nunca alcançados a capacidade de crítica alarve, arrebatada, apocalíptica e sobretudo totalmente desprovida de fundamentação e se não for essa a capacidade distintiva do Rei de Portugal então não sei o que é.

Desde cedo que identifiquei no meu pai o exemplo do que quereria ser quando crescesse: a capacidade aparentemente inata para, sem levantar o rabo da poltrona, reduzir a uma insignificância humilhante qualquer pessoa que aparecesse na televisão, independentemente de quem quer que fosse ou do que fizesse. Aliás, nem sequer conhecer a pessoa não a salvava, tornava apenas mais reduzido o conjunto de críticas que se podiam fazer o que só aumentava o prazer do exercício.

Outra capacidade notável era a de conseguir discutir um tema qualquer durante horas sem interrupção, isto obviamente sem nenhuma preparação prévia ou mesmo com um total desconhecimento do assunto. Independentemente disso, a ideia apresentada não era assumida como ideia mas sim como a verdade absoluta e universal e alguém que ousasse apresentar argumentos que defendessem uma opinião contrária era logo colocado no seu lugar através de uma crítica sarcástica apresentada de forma paternalista e condescendente para clarificar de uma vez por todas onde estava a razão.

Com o fim em mente comecei então a percorrer o meu caminho, tentando primeiro conhecer os temas em debate para poder fazer as minhas primeiras críticas. Com mais experiência logo me dedicaria a criticar sem qualquer conhecimento da matéria. Confesso no entanto que não foi fácil porque me faltava claramente a prática: "[Eu] Epá o Álvaro Cunhal já cansa. Diz sempre a mesma coisa!" "Cala-te!" ou "[Eu] Aquele Chalana é mesmo brinca-na-areia, não sai do mesmo sítio!" "Cala-te!". Percebi que começar por temas tão comuns seria uma má estratégia de entrada e então decidi apostar em nichos de mercado: "O Ramalho Eanes não consegue mesmo dizer duas frases seguidas, deve ser preciso uma lupa para descobrir massa cinzenta naquela cabeça, eheh" "[Eu] Pois, é como um Stegosaurus que era do tamanho de um autocarro mas tinha o cérebro do tamanho de uma noz! Eheh" "..........(Expressões faciais de interrogação) ...............Cala-te! Raio do puto!".

A minha evolução foi sendo feita assim, a pulso, de pequena vitória em pequena vitória e levou-me a pesquisar temas completamente diferentes, seguindo as modas de cada época, até conseguir criticar tudo o que mexa nem que seja só por analogia a outra coisa qualquer, sem conhecer na realidade o que está em causa. Procuro é não fazer uma crítica sem nenhuma argumentação, do género "Ah e tal a teoria das cordas pode fazer sentido mas é estúpida!" mas sim algo como "Então até o Einstein dizia que Deus não joga aos dados e agora querem convencer-nos que joga à cama do gato?"...não, continua a não ser muito bom. Hei-de pensar noutra coisa.

De qualquer forma, comigo como Rei, os portugueses têm finalmente alguém como seu representante que critica tudo sem excepção tal como é nosso apanágio. Com a República cada interveniente só criticava o que estava conotado com outra força política e com uma intensidade diferente de acordo com o mediatismo da questão, o local onde se encontrassem, acordos que tivessem feito com o outro partido ou que planeassem fazer, etc. o que era claramente insuficiente. Era escandaloso por exemplo que durante cada legislatura, cerca de metade dos deputados não criticassem ferozmente o governo só por serem do mesmo partido. Eu estou aqui para acabar com essa pouca-vergonha e prometo críticas permanentes a tudo e de uma forma totalmente alarve, arrebatada, apocalíptica e sobretudo totalmente desprovida de fundamentação.

Penso que depois desta argumentação já todos devem estar convencidos de que esta mudança é o melhor para Portugal. De qualquer forma, antes de vir a público fazer as minhas primeiras críticas vou certificar-me que as forças armadas e policiais são informadas da mudança de regime e que eu passei a ser a principal prioridade deles. É que isto de dizer que se é o Rei já tem precedentes e pode ser uma ameaça à integridade física. Por exemplo sei de uma pessoa há quase dois mil anos que de um dia para o outro lhe deu para começar a dizer: "Eu sou o Rei dos Judeus.". Ninguém ligou e por isso ele ficou um bocado ferido no seu orgulho. Resolveu então ir ao templo e desatou a espatifar as bancas dos comerciantes antes de repetir: "Eu sou o Rei dos Judeus!" desta vez beneficiando da atenção da multidão estupefacta. Essa primeira sensação de vitória foi logo infelizmente substituída por uma de "Estou que nem posso!" quando a multidão o pregou a uma cruz de madeira o que imagino que deve ter aleijado bastante. Ainda por cima naquele tempo as técnicas para conservação da madeira eram muito rudimentares por isso quase posso garantir que a cruz tinha bicho o que deve ter acrescentado à dor umas comichões terríveis nas costas.

Para evitar ser submetido a este tipo de tratamentos menos elegantes a minha primeira prioridade será então, como dizia, garantir o apoio das forças de autoridade. Com isso conseguido, a minha segunda prioridade será nomear um cronista real que vá escrevendo sobre mim, o vosso Rei, nesta crónica designada "Eu".